Existe uma coisa que o esporte profissional ensina muito bem sobre dinheiro: talento importa, dedicação importa, disciplina importa, equipamento importa, mas nada disso existe em um vácuo.
Por trás de cada atleta existe uma estrutura financeira. Existe salário, patrocínio, premiação, investimento, equipe, exposição, audiência e, principalmente, a decisão de quanto aquela profissão está disposta a pagar por aquele talento.
Foi exatamente por isso que o Tour de France Femmes 2026 me chamou tanto a atenção.
Mais do que acompanhar uma das maiores competições do ciclismo feminino mundial, eu fiquei pensando no quanto a história dessas mulheres tem relação com algumas das conversas que fazemos aqui no Mulher na Bolsa: autonomia, carreira, dinheiro, escolhas e a construção de um futuro em que uma mulher não precise escolher entre aquilo que ama e aquilo que deseja construir para a própria vida.
E poucas histórias representam isso tão bem quanto a de Demi Vollering.

Demi Vollering: perder para voltar ainda mais forte
Demi Vollering chegou ao Tour de France Femmes 2026 carregando uma história que parecia escrita para um roteiro de cinema.
A ciclista holandesa havia vencido o Tour em 2023. Em 2024, quando parecia caminhar novamente para a vitória, uma queda na etapa final mudou completamente o resultado. Vollering terminou em segundo lugar, enquanto Kasia Niewiadoma conquistou a camisa amarela por uma diferença de apenas quatro segundos.
Em 2025, Pauline Ferrand-Prévot assumiu o lugar mais alto do pódio.
Então veio 2026.
Vollering voltou a vencer etapas, assumiu protagonismo e chegou à última parte da competição disputando novamente a classificação geral. Na etapa final, atacou no Col d'Èze e conquistou seu segundo título do Tour de France Femmes, vencendo Niewiadoma por 1 minuto e 18 segundos.
Eu gosto dessa história porque ela não fala apenas sobre bicicleta; ela fala sobre resiliência. No mercado financeiro, nós aprendemos que uma perda não define uma carteira. Uma decisão ruim não precisa determinar toda a trajetória de um investidor. O que importa é o que você faz depois dela.
No esporte acontece algo parecido.
Você pode cair quando está liderando. Pode perder uma oportunidade por segundos. Pode mudar de equipe. Pode reconstruir sua estratégia. E pode voltar.
A história de Vollering é, de certa forma, uma aula sobre isso.
Mas existe uma conta que aparece antes da linha de chegada
Quando assistimos a uma grande competição esportiva, é muito fácil enxergar apenas o espetáculo.
A atleta aparece na televisão. O uniforme está impecável. A bicicleta é sofisticada. A equipe tem carros, mecânicos, nutricionistas, fisiologistas e toda uma estrutura profissional.
Mas tudo isso custa dinheiro.
E é justamente aí que aparece uma das maiores diferenças entre o Tour de France masculino e o feminino.
Tour de France Femmes 2026
Vencedora: €50 mil
Tour de France masculino 2026
Vencedor: €500 mil
Em outras palavras, o prêmio total da competição feminina representa pouco mais de 10% do valor distribuído na competição masculina. E a diferença aparece também quando olhamos para os vencedores: €50 mil para Demi Vollering contra €500 mil para Pogačar.
Existe um detalhe importante nessa comparação.
Premiação não é salário.
Os valores recebidos pelas atletas também são divididos dentro das equipes e existem contratos, salários, bônus e patrocínios que fazem parte da remuneração. Portanto, não podemos olhar somente para o prêmio em dinheiro e concluir quanto cada ciclista ganhou no ano.
Mesmo assim, a diferença revela algo importante sobre o tamanho econômico dos dois mercados.
E dinheiro acompanha audiência, exposição, patrocínio e investimento.
Por isso, quando uma mulher assiste ao Tour de France Femmes, compartilha uma etapa, acompanha uma atleta, compra produtos relacionados ao esporte ou simplesmente fala sobre a competição, ela também está ajudando a construir um mercado.
Quantas mulheres realmente estão no ciclismo profissional?
O crescimento do ciclismo feminino é inegável, mas a estrutura ainda é menor do que a masculina.
Para a temporada de 2026, a UCI registrou 14 equipes femininas na primeira divisão, as UCI Women's WorldTeams, contra 18 equipes masculinas na UCI WorldTour.
Além disso, existem sete UCI Women's ProTeams na segunda divisão feminina, enquanto o sistema masculino conta com 16 UCI ProTeams.
Isso significa que estamos falando de centenas de mulheres competindo no mais alto nível, mas dentro de uma estrutura profissional que ainda é consideravelmente menor do que a masculina.
E essa diferença não é apenas uma questão de quantidade; ela influencia oportunidades.
Menos equipes significam menos vagas. Menos vagas significam menos atletas profissionais. Menos atletas profissionais significam um mercado menor para patrocinadores, salários e desenvolvimento de carreira.
É por isso que profissionalizar o esporte feminino não significa simplesmente colocar mulheres para competir.
Significa construir uma indústria capaz de sustentar essas mulheres.
E então chegamos a uma questão que considero ainda mais importante: maternidade
Existe um dado sobre o ciclismo profissional feminino que deveria fazer qualquer pessoa parar para pensar.
A UCI começou a introduzir medidas de proteção à maternidade nos contratos das equipes femininas de elite antes mesmo de 2022. A reforma anunciada para as Women's WorldTeams previa, a partir de 2020, uma cláusula que garantia três meses com 100% do salário e outros cinco meses com 50% do salário para ciclistas afastadas por gravidez, além de cobertura de saúde e maternidade.
Em 2022, outro avanço importante entrou em vigor: a contribuição obrigatória para um plano de previdência.
A diferença de datas é importante porque mostra como a profissionalização aconteceu em etapas. A maternidade começou a ser protegida contratualmente antes de 2022, enquanto a previdência passou a fazer parte da estrutura obrigatória a partir daquele ano.
Por que isso é tão relevante?
Porque durante muito tempo uma atleta profissional podia olhar para a maternidade como uma ameaça direta à própria carreira.
Em outras profissões, nós discutimos licença maternidade, estabilidade, previdência, seguro e retorno ao trabalho como componentes básicos de uma carreira sustentável.
No esporte de alto rendimento, essa discussão demorou muito mais para ganhar espaço.
E isso mostra como dinheiro e liberdade de escolha estão diretamente conectados.
Uma atleta que não possui proteção financeira pode precisar escolher entre ser mãe e continuar competindo.
Uma atleta que possui estrutura, contrato, seguro e planejamento pode ter mais condições de fazer uma escolha verdadeiramente sua.
Isso também é autonomia financeira.
O dinheiro por trás de uma bicicleta
Talvez seja exatamente por isso que eu tenha gostado tanto de acompanhar o Tour de France Femmes deste ano.
Quem olha de fora pode pensar que ciclismo é simplesmente uma bicicleta, uma estrada e uma atleta tentando chegar primeiro.
Não é.
Existe uma cadeia econômica enorme por trás de cada equipe.
São patrocinadores, fabricantes de bicicletas, empresas de tecnologia, roupas, equipamentos, alimentação, hotéis, transporte, mídia, produção audiovisual, organizadores e milhares de profissionais envolvidos.
Quando o ciclismo feminino cresce, esse ecossistema também cresce.
E existe um efeito que considero especialmente interessante: mulheres começam a enxergar outras mulheres ocupando espaços que antes pareciam exclusivamente masculinos.
A atleta deixa de ser apenas atleta.
Ela se transforma em referência.

Foi por isso que eu quis assistir ao Tour de France Femmes de uma forma diferente
No dia 9 de agosto, tive a alegria de realizar uma Watch Party do Tour de France Femmes na Bay Cycles, em San Mateo.
Foi uma manhã muito especial.
Reunimos pessoas apaixonadas por ciclismo para assistir à final do Tour, conversar, compartilhar aquele momento e celebrar também outro projeto muito importante para mim: o lançamento físico da edição em inglês do meu livro CEO of Your Own Money.
Para mim, a conexão entre os dois eventos não poderia ser mais natural.
O ciclismo me ensina sobre disciplina, consistência, estratégia e resistência. O dinheiro também.
Você não começa uma subida de 20 quilômetros pensando apenas nos últimos 500 metros. Você precisa administrar energia, entender o terreno, conhecer seus limites e tomar decisões ao longo do caminho.
Investir também funciona assim: não se trata apenas de ganhar dinheiro; trata-se de aprender a tomar decisões melhores com o dinheiro que você tem.
Foi exatamente essa mensagem que eu quis levar para CEO of Your Own Money.
E foi emocionante ver o livro físico nas mãos das pessoas que estiveram comigo naquela manhã.


O lançamento foi um sucesso, mas, para mim, o mais importante foi olhar ao redor e perceber quantas pessoas escolheram estar ali.
Algumas chegaram pela paixão pelo ciclismo. Outras pelo livro. Outras vieram simplesmente para me apoiar.
No final, todos estávamos celebrando a mesma coisa: mulheres ocupando espaço.
O que o Tour de France Femmes tem a ver com educação financeira?
Talvez mais do que pareça.
Quando eu falo sobre educação financeira, não estou falando apenas sobre bolsa de valores.
Dinheiro está presente nas nossas escolhas profissionais, na maternidade, na aposentadoria, na mudança de carreira, na possibilidade de empreender e até na liberdade de continuar fazendo aquilo que amamos.
O ciclismo feminino está mostrando isso de uma maneira muito concreta.
Uma atleta precisa pensar na carreira enquanto compete, pensar no contrato, no futuro, no que acontece depois da aposentadoria.
Precisa entender o valor do próprio trabalho e precisa ter condições de negociar.
Isso é educação financeira aplicada à vida real.
O Tour de France Femmes está crescendo, mas ainda existe muito caminho pela frente
A evolução do ciclismo feminino nos últimos anos é impressionante.
A UCI criou uma estrutura de equipes profissionais femininas, estabeleceu salários mínimos, introduziu proteção relacionada à maternidade, ampliou a cobertura das competições e criou uma segunda divisão profissional para aumentar o número de atletas que conseguem ter acesso a uma estrutura profissional.
Mas crescimento não significa igualdade.
Ainda existe uma diferença enorme em premiação.
A cobertura televisiva também continua sendo um ponto de discussão. Em 2026, por exemplo, apenas três das nove etapas do Tour de France Femmes tiveram transmissão integral, enquanto a organização já admite que existe uma discussão sobre ampliar essa cobertura no futuro.
E aqui existe uma lógica econômica muito simples.
Para aumentar o valor de um mercado, precisamos aumentar sua visibilidade.
Mais audiência gera mais interesse.
Mais interesse pode gerar mais patrocinadores.
Mais patrocinadores podem gerar mais investimento.
Mais investimento pode gerar melhores salários, melhores estruturas e mais oportunidades.
E mais oportunidades fazem com que mais meninas e mulheres consigam imaginar uma carreira profissional no esporte.
Uma corrida que é muito maior do que uma corrida
Quando Demi Vollering cruzou a linha de chegada em Nice e conquistou novamente o Tour de France Femmes, ela não estava apenas colocando mais um título no currículo.
Ela estava escrevendo mais um capítulo da história de um esporte que ainda está construindo sua própria estrutura profissional.
E talvez essa seja a parte mais bonita de acompanhar tudo isso. Nós estamos vendo essa história acontecer.
Estamos vendo atletas como Vollering, Kasia Niewiadoma, Pauline Ferrand-Prévot, Lotte Kopecky, Marianne Vos, a brasileira Tota Magalhães e tantas outras mulheres transformarem o ciclismo feminino em um espetáculo cada vez maior.
Mas também estamos vendo algo que vai além da competição.
Estamos vendo mulheres conquistando espaço, negociando contratos, construindo patrimônio, tornando-se referências e mostrando para uma nova geração que existe lugar para elas.
Foi isso que celebramos na nossa Watch Party na Bay Cycles.
Foi isso que eu senti ao colocar nas mãos das pessoas o livro físico CEO of Your Own Money.
E é isso que eu acredito quando falo sobre autonomia financeira.
A vida não é uma corrida em linha reta.
Existem subidas, descidas, quedas, pausas. Existem momentos em que precisamos mudar de estratégia. E existem momentos em que precisamos simplesmente continuar pedalando.
No esporte e na vida financeira, o objetivo não deveria ser apenas chegar primeiro.
Deveria ser chegar mais longe, com mais consciência sobre as escolhas que fizemos no caminho.
E, principalmente, ter liberdade para escolher qual será o nosso próximo destino.
UCI, Union Cycliste Internationale. Regulamentação e profissionalização do ciclismo feminino.
Tour de France Femmes avec Zwift. Informações oficiais sobre a competição e composição do pelotão.
Cyclingnews. Cobertura da premiação e dos resultados do Tour de France Femmes 2026.
Cycling Weekly. Comparação da premiação entre o Tour de France masculino e feminino em 2026.
The Guardian. Cobertura da vitória de Demi Vollering no Tour de France Femmes 2026.
Mulher na Bolsa. Informações sobre CEO of Your Own Money e educação financeira.